História

DA DESCOBERTA E POVOAMENTO DAS ILHAS AÇORIANAS: ALGUNS DADOS HISTÓRICOS

Embora desconhecendo-se a data precisa da descoberta do arquipélago dos Açores, os re­latos históricos apontam Santa Maria e São Miguel como as primeiras ilhas a serem reco­nhecidas, por volta do ano de 1427, pelo nave­gador português Diogo de Silves, que terá feito um primeiro reconhecimento do seu litoral. 

Santa Maria

Anos mais tarde, a 15 de Agosto de 1432, dia da Assunção de Nossa Senhora, Gonçalo Velho Cabral, com a dúzia de tripulantes que consigo trazia na minúscula caravela com que atraves­sara as águas do oceano, chega e desembarca na ilha a que daria o nome de Santa Maria, em homenagem à Virgem Santa. 

O povoamento da ilha, a primeira dos Açores a ser povoada, deu-se no ano de 1439, fixando­-se os primeiros povoadores na Praia dos Lobos, ao longo da Ribeira do Capitão. Mais tarde e com o intuito de dar novo impulso ao povoa­mento da ilha, João Soares de Albergaria, so­brinho do primeiro capitão-donatário de Santa Maria, Gonçalo Velho, e seu herdeiro, traz para ela algumas famílias do continente, sobretudo do Algarve, registando-se assim um grande de­senvolvimento da ilha, o que leva à concessão do primeiro foral de vila nos Açores, ficando a respectiva localidade conhecida como Vila do Porto, ainda hoje o mais importante e principal centro urbano da ilha. 

Foi em Santa Maria que Cristovão Colombo fez escala, no regresso da sua primeira viagem à América, em 1493, desembarcando perto do lugar dos Anjos a fim de cumprir uma promessa feita em alto mar, a de ouvir missa numa igreja de devoção a Nossa Senhora, na primeira terra que a encontrasse. Após o desembarque, tendo sido tomado por pirata, foi feito prisioneiro às ordens do Governador da ilha, só sendo liber­tado após esclarecer as verdadeiras razões da sua escala. 

São Miguel

Quanto ao povoamento de São Miguel os re­latos apontam o seu início para o ano de 1444, por Gonçalo Velho Cabral, desembarcando os seus povoadores no lugar da Povoação, oriun­dos sobretudo da Estremadura, Alto Alentejo, Algarve e mesmo alguns estrangeiros, nomea­damente franceses, espalhando-se depois, com o correr dos anos, ao longo de toda a zona cos­teira da ilha e fixando-se nos locais de melhor acessibilidade e que melhores condições e fa­cilidades de vida ofereciam, essencialmente no que se referia ao aproveitamento do solo. 

A fertilidade deste, aliada à priveligiada posi­ção geográfica das ilhas no meio do Atlântico, rapidamente contribuiram para uma forte ex­pansão económica de São Miguel através, da produção do trigo que se exportava para abas­tecimento das guarnições portuguesas das pra­ças do Norte de África, do fabrico do açúcar de cana e da exportação para a Flandres das plan­tas tintureiras do pastel e da urzela. Mais tarde, a grande proliferação de laranjais traz para a ilha significativa riqueza pela exportação de la­ranja, cujo principal mercado era a Inglaterra. 

Palco nos finais do séc.XVI e princípios do séc. XVII de ataques de corsários franceses, ingleses e argelinos, em 1582 São Miguel é ocupada por tropas espanholas, após a derrota, em frente a Vila Franca do Campo, duma esquadra francesa em que também combatiam tropas portuguesas de apoio a D.António, prior do Crato, preten­dente ao trono de Portugal então vago, só recu­perando a sua condição de território português livre após a Restauração da Independência Na­cional, em Dezembro de 1640. 

A primeira capital de São Miguel foi Vila Fran­ca do Campo, que perdeu essa condição após ter sido soterrada na sequência de um violento terramoto sentido em 1522, surgindo em sua substituição Ponta Delgada, localidade situada cerca de 25 Km para leste, já então sede de município e que, em 1546, viria a tornar-se na primeira cidade da ilha. 

Já nos nossos dias, mais propriamente em 1981, a Ribeira Grande, povoação que em 1507 recebera de D. Manuel o foral de vila e que se localiza na costa norte de São Miguel a 18 Km de Ponta Delgada, é elevada à categoria de cidade. 

Terceira

A terceira ilha dos Açores a ser descoberta de­signava-se inicialmente por Ilha de Jesus Cristo, adoptando, posterior e definitivamente, o nome de Terceira. 

A concessão da sua capitania foi feita pelo In­fante D.Henrique ao flamengo Jácome de Bruges que, por volta de 1450, iniciou o seu povoamen­to, fixando-se os primeiros povoadores nas áreas de Porto Judeu e Praia da Vitória e estendendo­-se posteriormente, tal como acontecera em São Miguel, a toda a periferia da ilha. 

A Terceira representa um marco importante na História de Portugal pois, aquando da suces­são ao trono português do rei Filipe II de Espa­nha em 1580, tomou firmemente o partido de D.António, prior do Crato, pretendente àquele trono. 

Resistindo galhardamente à tentativa de con­quista da ilha pelos espanhóis, em 1581 o pri­meiro desembarque das tropas de Filipe II é to­talmente derrotado na célebre batalha da Salga. Porém, dois anos mais tarde e após violentos combates, não consegue resistir a novo ataque da tropa espanhola, agora com um contingente muito superior comandado por D. Álvaro de Ba­zan, que ocupa a ilha, tornando-se assim esta na última parcela do território português a ren­der-se à soberania espanhola. 

Durante o período em que esteve sob o do­mínio filipino, de 1583 a 1640, a Terceira que já então detinha posição de destaque como en­treposto marítimo das rotas das Índias, adquire renovada importância como porto de escala dos galeões espanhóis que, do Perú e do México, transportavam fabulosas riquezas em ouro e prata, em direcção a Cádiz, privilegiando por isso o Império Espanhol as suas relações com a Ilha, naquela época. 

Na primeira metade do séc.XIX, a Terceira vol­ta a assumir papel preponderante na História portuguesa: apoiando desde 1820 a causa li­beral, em 1829 os Absolutistas são dominados após violenta batalha travada na baia da Vila da Praia, em que as tropas miguelistas foram der­rotadas quando tentavam desembarcar na ilha. 

A Vila da Praia passara por isso, a chamar-se Praia da Vitória e Angra, pelo espírito de sacri­fício e patriotismo demonstrados recebe a de­signação de Angra do Heroísmo. A regência do reino é instalada em Angra e depois da conquis­ta das restantes ilhas para a causa da Terceira, partem em direcção ao continente, em 1832, a armada e o exército que, desembarcando no Mindelo, proclamam a Carta Constitucional em todo o País. 

Angra do Heroísmo, a primeira cidade a ser criada nos Açores, em 1534 e sede da diocese açoriana, possui um património arquitectónico de grande valor, o que lhe mereceu ver incluí­da na lista do Património Mundial da UNESCO uma vasta zona de 6 Km2 (1983). O seu rico património sofreu duro golpe ao ser grandemen­te destruído por um violento sismo ocorrido em 1 de Janeiro de 1980, mas a forte determina­ção dos responsavéis pelo sua reconstrução le­vou a que os edifícios e monumentos então da­nificados, mantenham hoje a sua traça inicial. 

Praia da Vitória, centro urbano situado na cos­ta Leste da Terceira, a cerca de 22 Km de An­gra, onde se localiza um amplo porto oceânico e, a 3 Km, um importante e estratégico aero­porto, com funções civis e militares, recebeu o título de cidade em 1981. 

Graciosa

Não existindo dados precisos sobre a data do descobrimento da Graciosa, é muito provavél que esta ilha tivesse sido pela primeira vez lo­calizada por mareantes da vizinha Terceira, que lhe fica a 31 milhas marítimas para sudeste, por volta do ano de 1450. 

Iniciou o seu povoamento, também em data não determinada, Vasco Gil Sodré, um conti­nental natural de Montemor-o-Velho que, com sua mulher, filhos e criados aportou ao Carapa­cho, local onde se fixou e construiu a sua casa, daí partindo para o desbravamento da ilha, no que foi pioneiro. 

Não obstante ter construído uma alfândega e feito outras diligências para que lhe fosse doada a capitania da ilha, a Pedro Correia da Cunha, concunhado de Cristovão Colombo, foi confiada a capitania da parte norte da Graciosa e a Duar­te Barreto, a da parte sul.

 
O aumento da população da ilha, resultado sobretudo da vinda de gentes das Beiras, do Minho e da Flandres, reflecte-se na sua prospe­ridade, o que leva Santa Cruz a receber o foral de vila em 1486, recebendo a Praia, 60 anos mais tarde, igual mercê. 

Virada desde os primórdios do povoamento para a agricultura e para a plantação de vinhas, já no séc.XVI a Graciosa exportava trigo, ceva­da, vinho e aguardente, privilegiando todo o seu comércio com a Terceira, ilha que lhe ficava mais próximo e que possuia um amplo porto muito frequentado por navios de grande porte e que, além disso, na época era um importante centro económico e administrativo dos Açores. 

Nos sécs.XVIII e XIX, a Graciosa foi anfitriã de proeminentes figuras da época, como o es­critor francês Chateaubriand na sua fuga para a América durante a Revolução Francesa, o grande poeta português Almeida Garrett, então jovem de visita a seu tio e que na ilha escreve já versos que revelam o seu talento e o príncipe Alberto de Mónaco, notável pela sua dedicação a trabalhos de hidrografia e estudos da vida ma­rinha, que chegou à ilha a bordo do seu famoso iate “Hirondelle”, nela tendo visitado a furna da Caldeira. 

São Jorge

A data da descoberta e povoamento de São Jorge é uma incógnita, remontando ao ano de 1439 a primeira referência conhecida da ilha. Em 1443 esta era já habitada, mas o seu po­voamento tem grande incremento com a che­gada à ilha do nobre flamengo Wilhelm van der Haegen, que desembarcou no Topo e aí criou uma povoação, onde mais tarde viria a falecer, já então conhecido por Guilherme da Silveira. 

A capitania da ilha foi doada em 1483 a João Vaz Corte Real e o primeiro foral de vila em São Jorge foi atribuído, antes do final do séc.XV, à localidade de Velas. 

Assentando basicamente a sua economia na vinha e na produção de trigo além do pastel e da urzela que eram exportadas para a Flandres e outros países da Europa para uso na tintu­raria, São Jorge prospera e, em 1510 e 1534 respectivamente, Topo e Calheta eram já sedes de concelho. 

No período conturbado da subida ao trono português do rei Filipe II de Espanha, tal como a Terceira, São Jorge apoia incondicionalmente D.António, prior do Crato, capitulando frente aos espanhóis após a queda daquela ilha. 

Como outras do arquipélago, São Jorge foi também palco de ataques de corsários ingleses e franceses e cobiça dos piratas turcos e argeli­nos, ao longo dos sécs.XVI, XVII e XVIII. 

Pico

Desconhecendo-se igualmente a data exac­ta da descoberta da ilha do Pico, sabe-se no entanto que o seu povoamento teve início por volta do ano de 1460, com naturais do norte de Portugal, no lugar das Lajes, posteriormente primeira vila e sede de concelho da ilha. 

Dedicando-se inicialmente os seus habitantes à produção de trigo e à exportação de pastel, após laborioso trabalho na transformação de extensos campos de lava em fertéis pomares e produtivos vinhedos, os picoenses voltam­-se para a produção do famoso “Verdelho do Pico”, que atinge fama internacional, durante mais de 2 séculos, chegando mesmo a ser mui­to apreciado e consumido na mesa dos czares da Rússia. Um forte ataque de oídio, em mea­dos do séc.XIX, destruiu praticamente todas as plantações de vinha, afectando sobre maneira a economia da ilha. 

Além da vinha, outra importante fonte de ri­queza das gentes do Pico durante muitos anos foi a caça ao cachalote, actividade em que os picoenses eram exímios artesãos. Hoje, por força das leis internacionais de protecção àquela espé­cie, esta actividade é apenas uma grata recorda­ção dos “Lobos do Mar”, orgulhosamente retra­tada no Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico. 

As vilas de São Roque, desde 1542 e da Ma­dalena, desde 1723 são, os dois centros sede de concelho da Ilha Montanha, como também é conhecido o Pico. 

Faial

Designada nas antigas cartas e portulanos por Insule de Venture, a ilha do Faial só foi descoberta na primeira metade do séc.XV, embora ao certo não se saiba qual o ano. Do seu povoamento sabe-se que teve início antes de 1460, por povoadores vindo do norte de Portugal, que se terão instalado no lugar que hoje constitui a freguesia dos Cedros, na costa norte da ilha. 

Alguns anos mais tarde, o fidalgo flamengo Josse Van Huerter, acompanhado de um gru­po de compatriotas seus, desembarca no Faial, em busca do estanho e da prata que nela jul­gava existir e, apesar da desilusão de sua não existência, mas entusiasmado com a ilha, aí se instala, acabando mesmo por conseguir, em 1468, a carta de donatário da mesma. 

É então que trás da Flandres mais colonos, que se vão instalar no vale que hoje é conhe­cido por Vale dos Flamengos e onde se situa a freguesia do mesmo nome, perpetuando assim a sua fixação no lugar. 

A agricultura e exportação do pastel são então as principais actividades da ilha. 

Nas lutas entre Liberais e Absolutistas no princípio do séc.XIX os faialenses apoiam os primeiros, combatendo valorosamente as tropas Miguelistas e contribuindo inclusivamente com um arsenal que viria a abastecer a frota que desembarcou no Mindelo. D.Pedro IV chega mesmo a visitar o Faial em 1832. 

À Horta, elevada a cidade em 1833 em re­conhecimento dos serviços prestados à causa liberal, chegou em 1919 o primeiro hidroavião a realizar a travessia do Atlântico e no Faial pela sua extraordinária situação geográfica, foram instaladas estações de cabos submarinos inter­continentais de nacionalidade inglesa, ameri­cana, francesa, alemã e italiana. 

O porto da Horta construído em 1876, serviu de abrigo à frota aliada que participou na histó­rica invasão da Normandia, em 1944 durante a Segunda Grande Guerra Mundial. 

Em 1957, precedida de uma crise sísmica que durou 12 dias e em que foram sentidos mais de 200 abalos de terra, entrou em erup­ção o Vulcão dos Capelinhos, com a cratera principal localizada a cerca de 1 Km ao largo da ponta oeste do Faial e cuja actividade durou 13 meses, durante os quais foram projectadas milhares de toneladas de cinzas negras que acumulando-se acrescentaram à superfície da ilha, 2,4 Km2 de terra firme. 

Flores e Corvo

As duas últimas, e mais ocidentais, ilhas do arquipélago dos Açores a serem descobertas fo­ram as Flores e o Corvo, tendo sido reconheci­das por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, por volta do ano de 1452. 

Inicialmente denominada de São Tomás ou de Santa Iria, devido à grande abundância de flores amarelas - cubres - que revestiam toda a ilha, esta adaptou o nome por que hoje é co­nhecida: Ilha das Flores. 

Ao fidalgo flamengo Wilhelm Van der Haegen é atribuído o início do povoamento das Flores, no ano de 1470, no Vale da Ribeira da Cruz mas o afastamento da ilha em relação às outras do arquipélago aliado à inexistência de ligações marítimas regulares que permitissem a expor­tação do pastel para a Flandres, levaram a que aquele fidalgo a abandonasse, indo então fixar­-se em São Jorge. 

Em princípios do séc.XVI, novo incremento é dado ao povoamento da ilha, cujas terras são arroteadas para a produção de trigo, cevada, milho e legumes, produtos destinados sobretu­do ao consumo interno. 

Em 1515 o lugar das Lajes recebe o foral de vila para, em 1548, Santa Cruz receber idêntica mercê. 

A ilha do Corvo conhecida anteriormente por Insula Corvi Marini, é a mais pequena do ar­quipélago com apenas 17 Km2 de superfície e tem vivido à base de uma agro-pastorícia com características muito próprias, que se tem man­tido até aos nossos dias, embora com algumas modificações. 

A presença de baleeiros americanos nos ma­res dos Açores no final do séc.XVIII e XIX, foi chamariz dos corvinos que, na actividade da caça ao cachalote, foram conhecidos pela sua valentia, sendo por isso muito procurados para tripulantes de navios baleeiros. Seduzidos por melhores condições de vida, muitos desses tri­pulantes deixaram-se ficar por terras america­nas, o que levou a que os índices de emigração de gentes do Corvo atingissem altos valores. 

Hoje, a Vila Nova do Corvo, único centro ur­bano da ilha e sede de concelho desde 1832, alberga uma população de cerca de 370 habi­tantes.